boots are made for walking

Todas as vezes que saio sabendo que irei encontrar alguém pelo caminho, fico receosa de usar botas. Não tem nada demais as bichinhas: chelseas, pretas, com cerca de 3cm de salto. Contudo, o tec-tec-tec das mesmas no carpete mal instalado da minha casa alugada me faz sentir como se os 3cm gritassem para ser 30, me deixando assim acima de quase todos os meus conhecidos – atingiria 1,94m de altura.

O quão na dúvida fico entre molhar os pés e parecer arrogante depende do grau de proximidade com o sujeito ao qual se dará o encontro. Com amigos a coisa fica mais fácil, como se a intimidade dissesse “você sabe que pode me ver descalça quando quiser”.

acúmulo

a vida atualmente é
mais que um acúmulo de átomos
um acúmulo de textos que você tenta se convencer que irá ler
de projetos que você tenta se convencer que pode fazer
de amigos que você diz que vai encontrar entre as 18h e 19h daquela quarta-feira que nunca chega

a vida atualmente é
um acúmulo das mais certas incertezas.

mudança I

O início das coisas é a gente quem dá. Um relacionamento pode começar no exato instante da primeira vez que olhares se cruzam ou esperar até que a aliança de compromisso esteja devidamente encaixada no anelar. É só um exemplo, mas é a gente que define onde começam as coisas. Os nossos começos e retornos, penso eu, tem muito a ver com o zodíaco e duvido muito que uma pessoa de virgem considere que alguma mudança já começou se ela não foi devidamente programada. Pra quem nasceu sob o sol em câncer, sair da concha já é mudar.

Criei uma pasta dentro de Documentos 2015 no meu Google Drive com o nome de “mudança”. Se eu tivesse algum amigo virginiano por perto, aposto 10 contos que ele diria “você ainda não começou a mudar nada”.

facebook

um livro de rostos
só pra te lembrar
qual é a o tamanho do espaço entre os olhos
como que as sobrancelhas franzem nas fotos surpresa
quem é que tem covinhas no canto do sorriso
um livro de fatos
de memórias
de causos
de saudades

eterno retorno

O meu primeiro blog foi um .zip da época que todo mundo que não tinha uma assinatura de e-mail Uol usava o Bol para criar uma conta no Orkut. Não faz tanto tempo quanto a sua memória pode fazer parecer, é sério. Naquela época ter um blog não era popular, mas também não era um motivo de cautela como é hoje. A internet se tornou, pouco a pouco, a substituta da janela indiscreta, assim, o que você faz e diz no meio digital já não é mais separado da vida real – uma pena talvez para os adolescentes, que não vão poder usar esse meio pra suas declarações emotivas daqui a alguns anos. Mas sempre é possível voltar aos diários físicos.

Escrever é uma necessidade, mas o papel nos encara com uma tez séria. Fica difícil fazer qualquer movimento quando alguém te encara assim. A internet vem leve, vem te dizendo que é sempre possível revogar o publicado, dar privacidade aquilo que ninguém deveria ler. O que inevitavelmente me lembra esse trecho de “A Insustentável Leveza do Ser”, que me perdoem se há algum leitor nesse blog, mas tão inevitável quanto essa comparação será o uso desse mesmo livro repetidas vezes por aqui, enfim:

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.

Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?”

Eu escolhi mudar de tema, embora não goste tanto de laranja quanto gostaria de links azuis e cinza que custam mais de 30 doláres, e postergar essa discussão – depois de discutir mentalmente entre wordpress e blogspot por mais de uma semana (o motivo: o layout que a Cristal usa no umanosemlixo).

Em seu livro Milan Kundera também cita em um capítulo a teoria nieztchiniana do eterno retorno, que, num resumo muito pouco crítico, questiona a ordem da vida nos perguntando como ela seria se a história se repetisse eternamente, a vida é preciso de muita analise para pensar, mas sabemos por hora como são os blogs se nossas histórias com eles se repetirem eternamente.

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O ócio é essencial à criatividade. Como quando se está em um quarto escuro por tempo prolongado. As ideias se tornam muito claras, com seus contornos muito definidos quando todas as luzes estão ligadas. Não sobra espaço para a curiosidade. Pelo contrário, está é facilmente substituída pelo desgaste, como em um velho relacionamento. O que difere entre as situações é o grau de conhecimento daquilo que se critica. Com as luzes acesas os contornos de uma ideia, muito definidos, têm suas próprias personalidades: bobo, assustador, clichê. É preciso apagar as luzes, tatear no escuro, encontrar segurança nas bordas. No tempo certo as pupilas se ajeitam.

 

Foto do instagram (LG-L5, VSCOcam)

kiss me

amemais

Para mim é incompreensível como chegamos aqui, como chegamos há duas semanas do último dia de 2014. É verdade que o modo repetir-essa-faixa no qual o ano esteve não colabora para a percepção do tempo passando. Repetir essa faixa que venho repetindo há dois-e-alguns-meses-anos. Penso que talvez os nossos ditadores estejam mais felizes do que nunca, ou que pelo menos serei eleita a funcionária do ano, que de tão empenhada em manter as engrenagens funcionando não teve tempo de olhar o arrebol quando descobriu que ele podia se chamar assim. Eu só sei que era mais fácil e mais leve quando tinha aquele lá e alguns outros com quem dividir a cantoria, alternada com pedidos de me-empresta-o-seu-ombro-agora-que-eu-preciso.

Dois mil e catarse, já diziam os sábios videntes que nada sabiam. Talvez foi a gente que ao darmos esse nome submetemos os dias a cumprir nossas expectativas, como quando dizem que todo Pedro é de Pedra – mas creio que não incluíram nossos dois imperadores nas estatísticas. De onde eu venho todo mundo é de pedra, de pedra amolada, não estão ali para travar mas para afinar, para cumprir, para manter as engrenagens girando. Girando, girando. Chega a ser irônico que alguns nunca viram um carrossel.

Abre parênteses: daqui a duas semanas será de novo aquele dia que estou repetindo há dois-e-alguns-meses-anos. Mas no momento há muita poeria acumulada pra tirar e eu preciso-fazer-isso-agora-não-não-dá-pra-deixar-pra-depois, encontrei álcool e isso sempre é um motivação, até mesmo para a limpeza. Há muita embalagem pra jogar fora, nossa como nós somos acumuladores, será que dá pra jogar fora alguns sentimentos junto com esses potes vazios? Mas agora eu tenho que terminar esse texto, já que comecei. Fecha parênteses.

É possível dizer que textos também são carrosséis? Não todos, mas talvez aqueles poemas concretistas que dão voltas e voltas, ou ainda poemas iluminados? Eu já não sei mais escrever. Não é como se alguma vez soubesse, mas como parte desse trabalho de manter a engrenagem sempre girando está cada vez mais difícil parar para pensar e todo texto deveria ter começo-meio-fim, mas nunca tempo, nunca tempo. Os meus textos são carrosséis quebrados.

Quebrada está também essa realidade. Quebrados estamos nós e os gregos. Mas nossa crise emocional não pode ser suprida pelos empréstimos ingleses. Agora eu fico me perguntando, a realidade quebrou antes ou depois que as pessoas começaram a querer quebrar o amor, lá na Avenida Paulista?

Sabe, esse ano eu ouvi muito que eu escrevo períodos longos demais. Fico me perguntando se perceberam que é porque na verdade nunca sei onde é que isso vai parar. Tenho que forçar a parada. Antes que nunca mais paremos de girar: chega de catarse, vamos desejar algo melhor. Vamos sintetizar essa conversa toda: que venha dois mil e kiss me.

Foto: Paraíso, SP. Outubro, 2014. (LG-L5)

♫ – kiss me, sixpence none the richer