Se eu me chamasse Raimundo

– Desculpa, esqueci seu nome de novo.

– Ah, relaxa, nomes são o que menos importa.

Quando se tem um nome que foge ao padrão, o “esqueci seu nome” se torna tão comum em sua vida quanto o “como se soletra mesmo?” “como se pronuncia mesmo?”. A vida dá algumas opções: aceitar o torto pelo certo ou se tornar um corretor chatissímo. Fico com ambas, porque tem dias que faz sol e tem dias que você precisa pegar um trem lotado às 5am com chuva. No dia que dei essa resposta em uma conversa passei todas as horas posteriores pensando involuntariamente se realmente nomes não importam tanto assim.Você pode chamar uma cadeira de outra coisa, mas o significado atribuído à palavra cadeira não vai mudar em um dia só. Uma palavra, um nome, um substantivo, designações que nos permitem reconhecer o mundo à nossa volta da mesma forma que as pessoas ao nosso redor. Símbolos, tão necessários nessa sociedade semiótica. Como quase sempre o que vale pra objetos não vale pra pessoas, daí não é possível reconhecer muito de alguém apenas pelo nome. Ser filho de fulano não é ser mais do que ser filho de fulano, ainda que isso tenha lá sua importância – e que me desculpem os revolucionários franceses, mas não sou eu que a proponho. O nome é um documento da sua existência. Ou quase. Seu nome conta de onde você veio, se teus pais te assumiram, qual a moda da época em que você veio ao mundo. Saber a história não dá muitas pistas para conhecer uma pessoa, apenas para compreender o que se tornar conhecido ao longo do tempo. No meu caso, por exemplo, diz meu documento que minha mãe sofreu uma grande influência da cultura americana, como a maioria dos jovens dos anos 70 e 80, especialmente dos filmes dos anos 50, que eu desconfio serem os únicos que ela tinha acesso, além disso, que minha família era de uma religiosidade tamanha que transformaram o nome da padroeira em sobrenome e abençoaram todas as pequenas, convenhamos que os meios de demonstrar o apego à religião são tão brasileiros quanto o Silva se tornou, e claro, por último uma confirmação de que os portugueses estiveram por aqui. Se eu me chamasse Raimundo, a história seria outra. E talvez eu não andasse pela Rua Maria Antônia pensando em trocar de nome com a baronesa.

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