kiss me

amemais

Para mim é incompreensível como chegamos aqui, como chegamos há duas semanas do último dia de 2014. É verdade que o modo repetir-essa-faixa no qual o ano esteve não colabora para a percepção do tempo passando. Repetir essa faixa que venho repetindo há dois-e-alguns-meses-anos. Penso que talvez os nossos ditadores estejam mais felizes do que nunca, ou que pelo menos serei eleita a funcionária do ano, que de tão empenhada em manter as engrenagens funcionando não teve tempo de olhar o arrebol quando descobriu que ele podia se chamar assim. Eu só sei que era mais fácil e mais leve quando tinha aquele lá e alguns outros com quem dividir a cantoria, alternada com pedidos de me-empresta-o-seu-ombro-agora-que-eu-preciso.

Dois mil e catarse, já diziam os sábios videntes que nada sabiam. Talvez foi a gente que ao darmos esse nome submetemos os dias a cumprir nossas expectativas, como quando dizem que todo Pedro é de Pedra – mas creio que não incluíram nossos dois imperadores nas estatísticas. De onde eu venho todo mundo é de pedra, de pedra amolada, não estão ali para travar mas para afinar, para cumprir, para manter as engrenagens girando. Girando, girando. Chega a ser irônico que alguns nunca viram um carrossel.

Abre parênteses: daqui a duas semanas será de novo aquele dia que estou repetindo há dois-e-alguns-meses-anos. Mas no momento há muita poeria acumulada pra tirar e eu preciso-fazer-isso-agora-não-não-dá-pra-deixar-pra-depois, encontrei álcool e isso sempre é um motivação, até mesmo para a limpeza. Há muita embalagem pra jogar fora, nossa como nós somos acumuladores, será que dá pra jogar fora alguns sentimentos junto com esses potes vazios? Mas agora eu tenho que terminar esse texto, já que comecei. Fecha parênteses.

É possível dizer que textos também são carrosséis? Não todos, mas talvez aqueles poemas concretistas que dão voltas e voltas, ou ainda poemas iluminados? Eu já não sei mais escrever. Não é como se alguma vez soubesse, mas como parte desse trabalho de manter a engrenagem sempre girando está cada vez mais difícil parar para pensar e todo texto deveria ter começo-meio-fim, mas nunca tempo, nunca tempo. Os meus textos são carrosséis quebrados.

Quebrada está também essa realidade. Quebrados estamos nós e os gregos. Mas nossa crise emocional não pode ser suprida pelos empréstimos ingleses. Agora eu fico me perguntando, a realidade quebrou antes ou depois que as pessoas começaram a querer quebrar o amor, lá na Avenida Paulista?

Sabe, esse ano eu ouvi muito que eu escrevo períodos longos demais. Fico me perguntando se perceberam que é porque na verdade nunca sei onde é que isso vai parar. Tenho que forçar a parada. Antes que nunca mais paremos de girar: chega de catarse, vamos desejar algo melhor. Vamos sintetizar essa conversa toda: que venha dois mil e kiss me.

Foto: Paraíso, SP. Outubro, 2014. (LG-L5)

♫ – kiss me, sixpence none the richer

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